A Juliana nasceu sem as duas pernas. Isso ela já entendeu desde sempre...
O que ela não consegue aceitar é o lado esquerdo do rosto. Começou como uma mancha do tamanho de uma moeda, aos sete anos. Hoje tomou o lado inteiro do rosto.
Cada mês ele avança um pouco mais. E o que ele toma, não volta.
Em casa elas são em três: a Cleide, a Juliana e a Manu, de seis anos, que tem autismo severo e só aceita duas pessoas perto: a mãe e a irmã. É a Juliana quem cuida dela, do chão. Parou de estudar no quinto ano por isso.
A Cleide é diarista. A diária é cem reais, e tem semana que sai uma só. Dá pra comida e pra luz. Ela tem quarenta e um anos e ainda carrega a filha de quatorze no colo, todos os dias.
Existe um tratamento que pode parar o que cresce e devolver parte do que o rosto já perdeu. O valor é mais do que a Cleide junta em vinte anos de diária.
A Juliana já fez as pazes com tudo que a vida tirou. Ela só quer fazer quinze anos com o rosto que ainda é dela.
A distância entre ela e esse começo diminui aqui embaixo.